Agroecologia

Redes de conhecimento agroecológico no Cerrado: o que dizem dez anos de monitoramento

Representação gráfica de paisagem agroecológica no Cerrado
Assentamentos monitorados no MATOPIBA concentram-se nas margens do bioma Cerrado. Ilustração: Mandioca.

Introdução

A agroecologia deixou de ser marginal nas discussões sobre o futuro da agricultura brasileira. Embora o modelo convencional de monoculturas extensivas continue dominante em termos de volume exportado, experiências de transição ecológica proliferam em assentamentos da reforma agrária, territórios quilombolas e propriedades familiares do Centro-Oeste e do Nordeste. Este artigo examina uma década de monitoramento em 47 assentamentos localizados na região conhecida como MATOPIBA — Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia —, onde a expansão do agronegócio convencional gerou intensos conflitos fundiários e pressão sobre o bioma Cerrado.

A pergunta central que orientou a investigação foi: de que forma redes horizontais de troca de conhecimento entre agricultores familiares influenciam indicadores de biodiversidade, produtividade e renda? A hipótese inicial, formulada por pesquisadores da Universidade de Brasília em parceria com movimentos sociais, postulava que a densidade de vínculos em redes de assessoria técnica popular correlacionaria positivamente com a diversificação de culturas e a redução do uso de agrotóxicos.

Metodologia

O estudo adotou desenho longitudinal misto, combinando levantamentos censitários bienais, entrevistas em profundidade e análise de indicadores edafológicos em parcelas de referência. A amostra compreendeu 1.240 domicílios rurais distribuídos nos 47 assentamentos, selecionados por critérios de estratificação que contemplaram tamanho do lote, tempo de ocupação e grau de inserção em cooperativas locais.

Fonte: Observatório Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Mapa/MDA). Boletim 14, 2025. Dados de cobertura vegetal processados com imagens Sentinel-2.

Para mensurar redes de conhecimento, aplicou-se questionário estruturado que mapeou frequência de participação em mutirões, oficinas de sementes crioulas, feiras agroecológicas e visitas de intercâmbio entre propriedades. O índice resultante — denominado Densidade de Vínculos Agroecológicos (DVA) — variou de 0 a 10, com média amostral de 4,7 no primeiro ano e 6,3 no décimo ano de acompanhamento.

Resultados

Os dados indicam correlação moderada (r = 0,58, p < 0,01) entre DVA e número de espécies cultivadas por propriedade. Assentamentos com DVA superior a 7 apresentaram média de 11,4 culturas distintas, contra 5,2 nos de DVA inferior a 3. A diversidade vegetal medida por índice de Shannon também aumentou significativamente nos lotes que adotaram sistemas agroflorestais, com ganhos mais expressivos a partir do quinto ano de implantação.

A transição agroecológica não é evento instantâneo. Exige acúmulo de saberes, experimentação local e tolerância ao risco em anos de transição produtiva.

Quanto à renda, a análise revela quadro mais heterogêneo. Propriedades em transição registraram queda média de 18% na receita bruta nos três primeiros anos, seguida de recuperação e superação dos níveis iniciais a partir do sétimo ano. Essa curva em "J" confirma achados de estudos anteriores em assentamentos do Sul e do Sudeste, mas com variância maior no MATOPIBA, onde infraestrutura de escoamento permanece deficitária.

Gráfico conceitual de diversidade de culturas
Evolução da diversidade de culturas correlaciona-se com densidade de vínculos agroecológicos. Fonte: elaboração Mandioca.

Crédito e políticas públicas

Apesar dos avanços documentados, pesquisadores e lideranças comunitárias apontam gargalo persistente no acesso a crédito rural orientado à agroecologia. Das 1.240 famílias entrevistadas, apenas 23% obtiveram financiamento via Programa Nacional de Crédito Fundiário com destinação explícita a práticas sustentáveis. A burocracia documental e a exigência de garantias reais excluem parcela significativa dos assentados.

Entrevista com Maria das Dores Silva, coordenadora da Cooperativa Terra Viva (BA), realizada em 3 de maio de 2026.

Especialistas consultados defendem revisão das normas do Plano Safra para contemplar transição agroecológica como linha autônoma, com carência alinhada ao ciclo produtivo de sistemas diversificados. A Embrapa Cerrados, por sua vez, destaca necessidade de investimento em estações experimentais regionais que validem combinações de culturas adaptadas às condições edafoclimáticas locais.

Conclusão

Dez anos de monitoramento no MATOPIBA demonstram que redes de conhecimento agroecológico são ativo estratégico para biodiversidade e resiliência econômica de comunidades rurais. Os resultados, contudo, não devem ser lidos como argumento de substituição imediata do agronegócio convencional em escala nacional. Trata-se de via complementar, cuja expansão depende de políticas de crédito, assistência técnica e comercialização compatíveis com ciclos produtivos mais longos e arranjos coletivos de mercado.

A Mandioca continuará acompanhando o painel longitudinal e publicará, em setembro, relatório com dados atualizados sobre sequestro de carbono em sistemas agroflorestais dos assentamentos estudados.