Saúde pública
Dados invisíveis: vigilância epidemiológica nas favelas do Rio e de São Paulo
Contexto
A pandemia de COVID-19 expôs ao país inteiro uma verdade que pesquisadores em saúde coletiva já documentavam há décadas: favelas e periferias urbanas são sistematicamente sub-representadas nos registros oficiais de doenças e agravos. Quando gestores municipais tomam decisões com base em mapas epidemiológicos, áreas com baixa notificação aparecem como "zonas brancas" — o que pode significar ausência de doença ou, mais provavelmente, ausência de dados.
Este artigo apresenta análise comparativa das bases de vigilância epidemiológica em 34 favelas do Rio de Janeiro e 28 comunidades da periferia paulistana, cruzando registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) com estimativas derivadas de inquéritos domiciliares conduzidos por organizações da sociedade civil entre 2022 e 2025.
Bases de dados e limitações
O Sinan é alimentado principalmente por unidades básicas de saúde e hospitais conveniados ao SUS. Em territórios onde a cobertura da atenção primária é esparsa ou onde barreiras geográficas dificultam o acesso, a notificação depende de busca ativa por agentes comunitários — cuja lotação, segundo levantamento da Fundação Oswaldo Cruz, está 37% abaixo do recomendado pelo Ministério da Saúde nas regiões analisadas.
Fiocruz. Relatório "Desigualdades em Saúde nas Periferias Metropolitanas", 2024. Rio de Janeiro.
Para contornar parcialmente essa limitação, equipes parceiras aplicaram questionários em amostra aleatória estratificada de 8.400 domicílios, perguntando sobre sintomas compatíveis com arboviroses, tuberculose e desnutrição infantil nos últimos doze meses. Os resultados foram georreferenciados e comparados com notificações oficiais no mesmo período e nas mesmas áreas.
Padrões de subnotificação
A disparidade entre casos estimados por inquérito e casos notificados variou de 2,1 a 7,8 vezes, conforme o agravo e o município. Para dengue, a subnotificação média foi de 3,4 vezes no Rio e 2,9 em São Paulo. Tuberculose apresentou razão mais elevada — 5,6 vezes na capital fluminense —, possivelmente associada ao estigma e à duração do tratamento, que desincentiva a procura formal.
Sem dados confiáveis, políticas públicas operam no escuro. A invisibilidade estatística reproduz a invisibilidade social.
A heterogeneidade intraurbana merece destaque. Mesmo dentro de uma mesma favela, setores mais próximos a unidades de saúde apresentaram taxas de notificação até quatro vezes superiores aos setores periféricos internos, onde o acesso depende de longas caminhadas ou transporte informal.
Iniciativas locais de vigilância
Diante das lacunas estatais, emergem experiências de vigilância popular. No Complexo do Alemão, coletivo de moradores desenvolveu aplicativo de registro comunitário de sintomas respiratórios, integrado a profissionais de saúde voluntários. Em Paraisópolis, associação de moradores mantém cadastro atualizado de gestantes e crianças menores de cinco anos, encaminhando alertas à UBS mais próxima.
Observatório de Favelas. "Cartografia Social e Saúde", nota técnica 7/2025.
Essas iniciativas não substituem o sistema oficial, mas demonstram viabilidade de arranjos híbridos nos quais dados comunitários complementam registros institucionais. Pesquisadores da USP defendem protocolos de governança de dados que garantam anonimização e controle comunitário sobre o uso das informações.
Recomendações
Com base no conjunto probatório reunido, formulamos três recomendações de política pública. Primeiro, expandir a lotação de agentes comunitários de saúde em territórios com índice de subnotificação superior a 3, priorizando setores internos de favelas com mais de 10 mil habitantes. Segundo, criar canal formal de integração entre bases comunitárias validadas e o Sinan, com auditoria independente. Terceiro, publicar trimestralmente mapas de cobertura de notificação por território, permitindo escrutínio social e correção de rotas.
A equidade em saúde pública começa pela equidade informacional. Tornar visíveis os dados das favelas é condição necessária — embora não suficiente — para políticas que respondam às necessidades reais de quem nelas vive.