Energia

Além da hidrelétrica: gargalos da transição renovável no Sistema Interligado Nacional

Representação de infraestrutura de energia renovável
O SIN concentra 98% da capacidade instalada do país. Ilustração: Mandioca.

Panorama da matriz brasileira

O Brasil ostenta uma das matrizes elétricas mais renováveis do mundo, com cerca de 83% da geração proveniente de fontes limpas em 2025, segundo balanço da Empresa de Pesquisa Energética. A hidrelétrica permanece como pilar, mas eólica e solar crescem em ritmo acelerado — especialmente nos estados do Nordeste, onde a irradiação solar e os ventos constantes criam condições naturais favoráveis.

Essa narrativa de liderança verde, contudo, oculta desafios estruturais. A transição para um sistema predominantemente variável — dependente de condições climáticas — exige repensar transmissão, armazenamento e regulação de mercado. Este artigo sintetiza entrevistas com doze especialistas em planejamento energético, além de documentos públicos da ANEEL e do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS).

Gargalos de transmissão

A expansão de parques eólicos e solares no interior do Nordeste superou, em vários corredores, a capacidade das linhas de transmissão existentes. O fenômeno conhecido como "curtailment" — desperdício de energia por impossibilidade de escoamento — atingiu picos preocupantes em 2024, com mais de 6% da geração eólica potencial não aproveitada em meses de vento intenso.

ONS. "Panorama da Operação do SIN", relatório anual 2025. Brasília.

O Plano Decenal de Expansão de Energia prevê investimentos de R$ 95 bilhões em linhas de transmissão até 2034, mas especialistas alertam para prazos de licenciamento ambiental que frequentemente excedem cinco anos. "Construímos usinas mais rápido do que linhas", resume a engenheira Helena Rocha, consultora independente ouvida pela Mandioca.

A transição energética não é apenas questão de instalar painéis e turbinas. É reorganização espacial da infraestrutura nacional.

Armazenamento e flexibilidade

Fontes variáveis demandam mecanismos de flexibilidade: armazenamento em baterias, bombeamento hidráulico reversível e resposta da demanda. O Brasil ainda possui capacidade limitada de armazenamento em baterias em escala de rede, embora projetos-piloto avancem em Minas Gerais e na Bahia.

A complementaridade hídrica — usar reservatórios como "baterias" naturais — permanece estratégia central, mas enfrenta pressão de conflitos múltiplos sobre uso da água: irrigação, abastecimento urbano, navegação e geração elétrica competem por volumes cada vez mais escassos em bacias sujeitas a secas recorrentes.

Diagrama conceitual de mix energético
Participação de fontes no SIN, 2025. Fonte: EPE, adaptado pela Mandioca.

Marco regulatório

A Lei 14.300/2022 estabeleceu marco para microgeração e minigeração distribuída, impulsionando painéis em telhados residenciais e comerciais. Por outro lado, debates sobre a tarifa de uso do sistema (TUSD) e a compensação de energia injetada na rede permanecem polarizados entre distribuidoras e associações de consumidores.

ANEEL. Nota Técnica 045/2025 sobre enquadramento de armazenamento em baterias no marco regulatório.

Especialistas defendem leilões específicos para armazenamento e maior previsibilidade regulatória para atrair investimento privado. A transição justa — que não deixe comunidades tradicionais e trabalhadores de termelétricas a margem — exige políticas ativas de reconversão profissional e compensação regional, argumenta o economista Paulo Nascimento, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Perspectivas até 2050

O compromisso brasileiro de neutralidade de carbono até 2050 implica não apenas expansão de renováveis na eletricidade, mas eletrificação de transportes e indústria. Cenários modelados pelo Instituto de Energia e Meio Ambiente indicam necessidade de triplicar a capacidade instalada total nas próximas duas décadas, com participação solar e eólica saltando de 25% para mais de 45% do mix.

Alcançar essa meta dependerá menos de tecnologias inexistentes e mais de coordenação institucional, investimento em rede e diálogo com comunidades afetadas por novas linhas e usinas. A transição energética brasileira tem potencial para ser referência global — desde que seus gargalos deixem de ser tratados como surpresa a cada apagão ou corte de geração.